Quem foi Grunya Sukhareva? A médica psiquiatra que descreveu o autismo pela primeira vez
6/23/20262 min read

Enquanto o mundo ocidental passou décadas consagrando Leo Kanner (1943) e Hans Asperger (1944) como os pioneiros do autismo, a psiquiatra infantil judia-ucraniana já havia publicado uma descrição clínica incrivelmente detalhada e moderna do autismo em 1925 — quase duas décadas antes deles.
Aqui estão os pontos centrais que mostram como o trabalho dela antecipou o que entendemos hoje e os motivos de seu apagamento:
1. A Vanguarda Científica de Sukhareva
Em 1925, Sukhareva publicou um artigo descrevendo seis crianças (meninos) com o que ela chamou inicialmente de "psicopatia esquizoide" (termo da época para o que depois seria chamado de autismo).
Critérios Modernos: Diferente de visões antigas que ligavam o autismo estritamente à esquizofrenia severa, Sukhareva identificou o que hoje chamamos de características do Transtorno do Espectro Autista (TEA): hipersensibilidade a estímulos sensoriais, talentos específicos (como habilidades musicais ou matemáticas extraordinárias), rigidez a mudanças nas rotinas e dificuldades profundas na reciprocidade social.
Inclusão de Meninas: Em 1926, ela publicou um segundo artigo focado em meninas. Isso é revolucionário porque Hans Asperger chegou a afirmar inicialmente que o quadro não afetava mulheres. Sukhareva percebeu cedo que o autismo se manifestava de forma diferente em meninas, apresentando um perfil que hoje a neurociência moderna reconhece como sutil (muitas vezes mascarado por habilidades sociais mimetizadas).
2. Os Fatores do Apagamento Histórico
O silenciamento de Sukhareva é um caso clássico de como a geopolítica, o preconceito e o machismo estrutural moldam a ciência:
A Barreira Linguística e a Cortina de Ferro: Ela publicava em russo e alemão. Quando seu artigo de 1925 foi traduzido para o alemão em 1926, seu nome foi erroneamente grafado como "Ssucharewa". Além disso, com a ascensão da União Soviética e o posterior isolamento da Guerra Fria, a ciência produzida na URSS era amplamente ignorada ou inacessível para o bloco ocidental.
O Antissemitismo e a Ideologia Higienista: Sendo uma mulher judia vivendo e trabalhando em um período de crescente antissemitismo na Europa (que culminaria no nazismo), o ambiente científico era hostil. Hans Asperger, que trabalhava na Áustria sob o regime nazista, muito provavelmente teve acesso à revista alemã onde o trabalho de Sukhareva foi publicado, mas citar uma cientista judia-soviética seria impensável e perigoso para ele.
A Cultura de Gênero: As ciências ocidentais do início do século XX eram dominadas por homens. O trabalho de mulheres cientistas era frequentemente minimizado, apropriado ou ignorado pelos comitês e publicações de prestígio.
Felizmente, nos últimos anos, historiadores da ciência e a comunidade neurodivergente têm feito um esforço ativo para reescrever essa história. Hoje, Grunya Sukhareva está gradualmente ocupando o lugar de direito na história da medicina: não como uma nota de rodapé, mas como a verdadeira pioneira na identificação do espectro autista.
Segue abaixo alguns artigos para aprofundamento no assunto:
https://link.springer.com/article/10.1007/s00787-021-01875-7
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